Deus é o agente.
O herói a si assiste, vário
E inconsciente.
A espada em tuas mãos achada
Teu olhar desce.
"Que farei com eu esta espada?"
Ergueste-a e fez-se.
Fernando Pessoa
"Non nobis, Domine, non nobis, sed Nomini Tuo da gloriam"

Serei eu alguma hora tão ditoso,
Que os cabelos que amor laços fazia,
Por prémio de o esperar, veja algum dia
Soltos ao brando vento buliçoso?
Verei os olhos, donde o sol formoso
As portas da manhã mais cedo abria,
Mas, em chegando a vê-los, se partia
Ou cego, ou lisonjeiro, ou temeroso?
Verei a limpa testa, a quem a Aurora
Graça sempre pediu? E os brancos dentes,
Por quem trocará as pérolas que chora?
Mas que espero de ver dias contentes,
Se para pagar de gosto uma hora,
Não bastam mil idades diferentes?

“Nome completo: Fernando António Nogueira Pessoa.
“Idade e naturalidade: Nasceu em Lisboa, freguesia dos Mártires, no prédio n.º 4 do Largo de S. Carlos (hoje do Directório) em 13 de Junho de 1888.
“Filiação: Filho legítimo de Joaquim de Seabra Pessoa e de D. Maria Madalena Pinheiro Nogueira. Neto paterno do general Joaquim António de Araújo Pessoa, combatente das campanhas liberais, e de D. Dionísia Seabra; neto materno do conselheiro Luís António Nogueira, jurisconsulto e que foi Director-Geral do Ministério do Reino, e de D. Madalena Xavier Pinheiro. Ascendência geral: misto de fidalgos e judeus.
“Estado: Solteiro.
“Profissão: A designação mais própria será «tradutor», a mais exacta a de «correspondente estrangeiro em casas comerciais». O ser poeta e escritor não constitui profissão, mas vocação.
“Morada: Rua Coelho da Rocha, 16, 1º. Dt.º, Lisboa. (Endereço postal - Caixa Postal 147, Lisboa).
“Funções sociais que tem desempenhado: Se por isso se entende cargos públicos, ou funções de destaque, nenhumas.
“Obras que tem publicado: A obra está essencialmente dispersa, por enquanto, por várias revistas e publicações ocasionais. O que, de livros ou folhetos, considera como válido, é o seguinte: «35 Sonnets» (em inglês), 1918; «English Poems I-II» e «English Poems III» (em inglês também), 1922, e o livro «Mensagem», 1934, premiado pelo Secretariado de Propaganda Nacional, na categoria «Poema». O folheto «O Interregno», publicado em 1928, e constituído por uma defesa da Ditadura Militar em Portugal, deve ser considerado como não existente. Há que rever tudo isso e talvez que repudiar muito.
“Educação: Em virtude de, falecido seu pai em 1893, sua mãe ter casado, em 1895, em segundas núpcias, com o Comandante João Miguel Rosa, Cônsul de Portugal em Durban, Natal, foi ali educado. Ganhou o prémio Rainha Vitória de estilo inglês na Universidade do Cabo da Boa Esperança em 1903, no exame de admissão, aos 15 anos.
“Ideologia Política: Considera que o sistema monárquico seria o mais próprio para uma nação organicamente imperial como é Portugal. Considera, ao mesmo tempo, a Monarquia completamente inviável em Portugal. Por isso, a haver um plebiscito entre regimes, votaria, embora com pena, pela República. Conservador do estilo inglês, isto é, liberdade dentro do conservantismo, e absolutamente anti-reaccionário.
“Posição religiosa: Cristão gnóstico e portanto inteiramente oposto a todas as Igrejas organizadas, e sobretudo à Igreja de Roma. Fiel, por motivos que mais adiante estão implícitos, à Tradição Secreta do Cristianismo, que tem íntimas relações com a Tradição Secreta em Israel (a Santa Kabbalah) e com a essência oculta da Maçonaria.
“Posição iniciática: Iniciado, por comunicação directa de Mestre a Discípulo, nos três graus menores da (aparentemente extinta) Ordem Templária de Portugal.
“Posição patriótica: Partidário de um nacionalismo místico, de onde seja abolida toda a infiltração católico-romana, criando-se, se possível for, um sebastianismo novo, que a substitua espiritualmente, se é que no catolicismo português houve alguma vez espiritualidade. Nacionalista que se guia por este lema: «Tudo pela Humanidade; nada contra a Nação».
“Posição social: Anticomunista e anti-socialista. O mais deduz-se do que vai dito acima.
“Resumo de estas últimas considerações: Ter sempre na memória o mártir Jacques de Molay, Grão-Mestre dos Templários, e combater, sempre e em toda a parte, os seus três assassinos –a Ignorância, o Fanatismo e a Tirania”.
Lisboa, 30 de Março de 1935 [no original 1933, por aparente lapso]
Fernando Pessoa
In: O mistério da Boca-do-Inferno: o encontro entre o Poeta Fernando Pessoa e o Mago Aleister Crowley, Lisboa: Casa Fernando Pessoa, 1995 (retirado do site da Casa Fernando Pessoa)
No próximo domingo, dia 26 de Abril, haverá em Roma a Canonização do próximo Santo Português, irá ser conhecido como S. Nuno de Santa Maria, mas é conhecido desde a sua morte como Santo Condestável. É uma personagem essencial na história de Portugal, na dinastia de Bragança, a sua filha D. Beatriz casou com um filho do Rei de Portugal, Dom João I, e deram origem a Casa de Bragança, de onde descendem os Reis de Portugal e os Imperadores do Brasil. O D. Nuno Álvares Pereira era filho do Prior da Ordem do Hospital em Portugal e neto do Arcebispo de Braga, desde muito cedo viveu sobre os padrões da Cavalaria, professava a Fé, Esperança e Caridade, defendida os princípios Justiça, Prudência, Temperança e Fortaleza com afinco e vontade inquebrável. Foi armado Cavaleiro ainda muito novo, e vivia rodeado das lendas da Tavóla Redonda e da busca do Santo Graal. Foi obrigado pelo pai a casar, pois desejava manter-se Casto, tal como o herói Galahad (ou Galaaz). Quando em 1383 o rei de Castela invadiu Portugal, juntou-se em torno do Mestre da Ordem de São Bento de Aviz que era um dos irmãos do anterior Rei de Portugal, na defesa do Reino. Sempre teve fama de ser Justo, um verdadeiro defensor da Fé. Mais tarde, e após ter garantido a independência de Portugal em 1385, e ter participado na primeira viagem marítima portuguesa na conquista de Ceuta em 1415, dedica-se à construção do Convento do Carmo em Lisboa. Obra que ele prometera construir caso a batalha lhe fosse favorável. Com a morte da mulher e mais tarde da filha, sentindo que a sua missão de defesa do reino estava cumprida e como mais nada lhe apegava ao mundo material, largou tudo e ingressou na Ordem do Carmo, onde viveu em voto de pobreza total (nessa altura era o homem mais poderoso do Reino além do próprio Rei). O Povo sempre o acariciou e venerou já no final da sua vida como Santo. Quando morreu, no dia 1 de Novembro de 1431, não tinha mais que o hábito do seu corpo e pediu para ser sepultado no chão, em campa simples e sem qualquer honraria. No seu túmulo, construído posteriormente encontrava-se o seguinte epitáfio: "Aqui jaz o famoso Nuno, o Condestável, fundador da Casa de Bragança, excelente general, beato monge, que durante a sua vida na terra tão ardentemente desejou o Reino dos Céus depois da morte, e mereceu a eterna companhia dos Santos. As suas honras terrenas foram incontáveis, mas voltou-lhes as costas. Foi um grande Príncipe, mas fez-se humilde monge. Fundou, construiu e dedicou esta igreja onde descansa o seu corpo."


A Grande Ursa
É o Útero da Terra
A viagem à escuridão profunda,
O Salmão voa
Com Sabedoria p´las águas
Rumo à morte
Predestinada,
O Falcão paira,
Flutua
No imenso Mar
Suspenso,
E aquele Ser nocturno,
De focinho pontiagudo
Ergue as presas
Ao luar,
Nele corre o Fogo
Como lava escorrendo
Na ebulição
Do (Re)nascimento.
Francisco Canelas de Melo
O amor só se revela
Quando o perdemos
Ou quando não o temos
O amor não pode ser possuído
A voz do amor luta
Contra a solidão
Vive nas trevas
E nas trevas é o seu lugar
Pois só com a esperança de alcançar a luz
Existirá e sobreviverá o Amor…
Francisco Canelas de Melo

O homem e a hora são um só
Quando Deus faz e a história é feita.
O mais é carne, cujo pó
A terra espreita.
Mestre, sem o saber, do Templo
Que Portugal foi feito ser,
Que houveste a glória e deste o exemplo
De o defender.
Teu nome, eleito em sua fama,
É, na ara da nossa alma interna,
A que repele, eterna chama,
A sombra eterna.
Fernando Pessoa
Em memória do Bem-Amado
Bebemos o Vinho que nos inebria
Antes mesmo da criação da videira
A taça que o contém
é um disco lunar brilhante
O Vinho, é sol.
Um crescente luminoso,
Um mordomo o serve à roda.
Com que luminosidade resplandece,
Já que no Vinho
Se misturam as estrelas !
Sem o perfume que exala
Um precioso perfume de musque
Eu jamais teria encontrado
o caminho da verdade
que conduz às suas tavernas.
Sem a luz que indica
Sua presença ao longe,
Sua imagem jamais teria
Nascido em meu espírito.
Pois neste século,
Sobrou dele apenas
um ligeiro sopro.
Como se no fundo dos corações
Um pacto secreto
Tivesse encerrado sua lembrança.
Então, apenas na tribo
Seu nome é mencionado,
Pois que uma embriaguez
Toma conta de seu povo.
Embriaguez sem vergonha
E sem pecado.
Por entre os flancos de uma ânfora
Lentamente ele subiu.
E logo, seu nome apenas
Permanece, em verdade,
Para o resgate de sua lembrança.
Tal lembrança
Visita , um dia
O espírito de alguém,
E por isso nesse alguém
A alegria passa a residir,
E a tristeza cela seu cavalo
Para ir-se embora, em longa viagem.
Os convidados descobrem
A tampa que fecha os vasos
Que o contêm.
Só esta visão já basta
Para inebriá-los
Antes mesmo de provar
A bebida.
Este Vinho, o derramamos
Sobre o solo
Onde um morto se enterra :
E tão logo o sopro o reanima
O cadáver e o morto
Levanta-se transbordante de vida.
Não se abandona um doente
Em seu terreno sombrio
Onde crecerá sua videira
Quando o mal tiver partido
O paralítico,
Assim que se aproxima
De suas tavernas,
Volta a caminhar.
Os mudos falam,
Quando se fala
diante deles
da sabor desse Vinho.
Assim que no Oriente
Sopra a brisa
Que traz o seu perfume,
No Ocidente,
Aquele que é privado de sua fragrância
Pode sentí-la
ainda outra vez.
Se, de dentro da taça
Uma gota respinga
Caindo sobre a palma da mão
Daquele que a segura,
Ele jamais se perderá
Caminhando pelas trevas
Pois em sua mão resplandecerá
Uma estrela.
Tal Vinho, é apresentado em segredo
A um cego de nascença :
E no dia seguinte, em plena alvorada
Ele se levanta, tendo recuperado a visão.
Quando se torna claro
o doce murmúrio desse Vinho,
Já logo recupera o ouvido
Aquele que é surdo.
Um tropel de cavaleiros
Ao trotar por sobre a terra
Onde cresce sua videira,
Jamais levaria no casco de seus cavalos
Qualquer resquício verminoso.
Um mago desenhou
Na testa de um possuído
As letras que formam seu nome
O que basta para curá-lo
Tal nome está bordado
No estandarte de um exército,
E todo o que marchar
Na sombra desta bandeira
É conduzido pela embriaguez
Ele educa seus convidados
E por eles, o homem indeciso
Adota o caminho
Das fortes resoluções
Ele sucita a generosidade
Na alma daquele
Cuja mão sempre ignorou doação
Ele ensina a doçura
Àquele que jamais a conheceu
Em seu momento mais colérico.
O mais forte da tribo
Tem o privilégio de beijar
A borda da taça,
Apenas este beijo
Permite-lhe saber
O sentido de suas perfeições
Dizem-me :
Descreva-o para nós,
Já que conheces tão bem
suas qualidades.
Sim, eu o descreverei,
Pois suas qualidades
Conheço-as perfeitamente.
Pureza !
Mas não a da água.
Sutileza !
Mas não a do ar.
Luminosidade !
Mas não a do fogo.
Alma carnal,
Sem corpo de carne.
Suas palavras precederam
Tudo o que existe aqui embaixo,
Quando nesse mundo
Faltavam a forma e a imagem
Por ele constituíram-se
Todas as coisas ;
Em seguida,
Por um certo saber, esconderam-se
Diante dos olhos que não compreendem.
Minha alma amou-o por inteiro.
Eles se misturaram
Para unirem-se
Mas não como uma simples
Mistura de duas matérias
Esse Vinho não foi extraído
De uma Vinha :
Adão é para mim um pai.
Vinha que não dá vinho :
Sua mãe é para mim uma mãe.
A pureza das taças
Contém na verdade
A pureza do sentido secreto
E cujo significado aparece
Através Dele.
A separação veio
Mas o todo é Um.
Nossas almas são o Vinho,
E nossa forma a videira.
Antes dele, não há antes ;
Depois dele, não há depois.
Sua necessária condição
É ser anterior
Ao mais recuado dos tempos.
Seu tempo
Precedeu o limite extremo do tempo.
O tempo de nosso pai
Veio apenas depois do seu.
Nossos pai viveu muito depois dele,
Como um órfão.
Seus admiradores
Celebram seus louvores,
Emocionados por sua beleza
São estes exelentes
Em verso ou mesmo em prosa.
Ao escutar os seus propósitos,
Regozija-se o que jamais ouvira,
Como o amante apaixonado
Pela bela Nou´m,
Assim que se pronuncia diante dele
O nome de sua amada.
Alguns me disseram :
Ao beber esse Vinho,
Cometeste iniquidade !
Isto não é verdade,
Pois iniquidade teria eu cometido
Ao privar-me de bebê-lo !
Que esta bebida
Alegre o coração
Dos habitantes do monastério !
A que embriaguez se abandonaram !
Entretanto não o beberam,
Mas apenas alimentaram
Sua intenção em bebê-lo.
Sua embriaguez, eu a experimentei
Antes de minha puberdade.
Em mim, ela será para sempre,
Mesmo depois de terem os meus ossos
Tornado-se poeira
Tal Vinho, bebe-o puro,
Pois, ao querer misturá-lo
A um outro licor
Que não a saliva do Amado,
Aí cometerás um crime !
Ele te espera nas tavernas,
Descobre o seu esplendor.
Bebe-o ao som de músicas,
Pois com ele, a música
É como uma presente que se oferece
Jamais ele habitou
Onde vive a tristeza.
E jamais a tristeza permaneceu
Na casa onde as canções se fundem
Embriaguez de uma hora !
O tempo se torna teu escravo
Sempre submetido,
Ainda que tua vida se interrompa
no final desta hora.
A ti então, o poder !
Aquele que viveu neste mundo
Sem embriaguez,
É como se não tivesse vivido !
Aquele que não morre
Desta embriaguez
Faltou-lhe a coragem
Neste mundo onde passou.




Santiago, o Apóstolo
Tiago, filho de Zebedeu e Salomé, e o seu irmão, João Evangelista, pescadores do mar da Galileia, foram chamados por Jesus Cristo (Mateus, 4:21). Estes apóstolos, juntamente com Pedro, gozavam de uma especial confiança e relação com Jesus, destacando-se do resto do grupo, testemunhando os momentos importantes (Marcos, 9:2-8). Após a morte de Jesus, Santiago é parte integrante da formação da Igreja Primitiva vindo a pregar não só na Palestina, mas também na Hispânia. Passou seis anos a pregar em Portugal e Espanha. No ano de 44 D.C., 12 anos após a ressurreição de Cristo, regressa à Palestina acompanhado dos seus discípulos Teodoro e Atanásio. Diz a tradição que foram celebrar a Páscoa em Jerusalém. Nesse retorno, Tiago Maior é preso e decapitado por ordem de Herodes Agripa I (Actos 12:1-2). Santiago torna-se, assim, o primeiro apóstolo mártir. Conta-se que, durante o caminho até a sua execução, realiza dois milagres: a conversão e baptismo do guarda que o acompanhava, um fariseu chamado Josías, e a cura de um paralítico.
Diz a lenda que o seu corpo foi atirado às feras. Porém os seus discípulos, Teodoro e Atanásio, transladam o corpo para o local onde ele havia pregado, numa viagem de sete dias, numa barca sem leme nem velas. Esta barca, guiada por um anjo, passa pela costa portuguesa e aporta na ria de Arosa, em Iria Flávia, actualmente conhecida como Padrón. Depois, segue-se a viagem até Liberum Donum, local onde seria sepultado o apóstolo. O transporte fez-se numa carroça puxada por uma junta de bois, que, pela tradição, se dizem bravos. Os animais param três vezes ao longo do percurso. Estranhamente, estas paragens acontecem todas a poucos metros umas das outras. Os discípulos interpretaram que a cada uma delas corresponde uma incumbência especial. Assim, no primeiro local, edificam uma capela; no segundo, uma fonte; e finalmente o terceiro, será o local onde é depositado o corpo e as relíquias de Santiago.
Pensa-se que as peregrinações ao túmulo começaram quase imediatamente, bem como as perseguições ordenadas pelo Imperador Vespesiano, acabando por proibir o culto Jacobeu, o que provoca um esquecimento letárgico.
No ano de 814, Pelaio, um eremita num bosque de Carvalhos próximo de San Félix de Solovio, ao seguir uma revelação que tivera durante o sono, no qual anjos adoravam uma arca, descobriu um túmulo que continha algumas relíquias. Pelaio corre a contar a sua revelação ao Bispo de Iria Flávia, Teodomiro. O bispo dirigiu-se ao bosque sagrado do ermitão, e tentou atingir o estado semelhante ao do eremita, jejuando três dias. Teodomiro, penetrou no bosque e identificou uma capela que continha três campas. Esta foi de imediato associada ao culto Jacobeu, e Teodomiro quis acreditar que se tratava do sepulcro de Santiago e dos seus dois discípulos. Afonso II das Astúrias, foi o primeiro peregrino deste novo ciclo do culto a Santiago.
Sobre este local foi erguida a Catedral de Santiago de Compostela.
De acordo com as tradições associadas à história da reconquista cristã, Santiago teria aparecido, pela primeira vez, miraculosamente, na Batalha de Clavijo, em 844. Montado num cavalo branco, ergue um estandarte da mesma cor com uma cruz vermelha estampada. Percorre o campo de batalha decepando os mouros com a espada que lhe dará nome. Desde então, a designação Matamoros torna-se popular. Comummente existem também referências ao nome.
Entretanto, dá-se a investida muçulmana de Al-Mansour. Este entrou na catedral destruída e deu de beber ao seu cavalo na pia baptismal.
Sancho III de Navarra, no século XI, determina um percurso de peregrinação que se irá manter até aos nossos dias. No final do mesmo século, o rei de Leão, Afonso VI, cria um sistema de assistência aos peregrinos com instalação de abrigos, e incentiva a fundação de ordens militares destinadas a protecção dos peregrinos.
Santiago torna-se numa das três peregrinações da Cristandade, juntamente com Roma e Jerusalém.
As três Faces
Curiosamente, Santiago é representado, iconograficamente, de três maneiras: como Apóstolo, como Peregrino e como Cavaleiro ou Matamoiros.
A primeira não é mais do que a comum representação de todos os apóstolos, como um dos pilares da Igreja. A segunda trata-se da imagem de Santiago, representado com o bordão que sustenta e apoia o peregrino na caminhada, a cabaça – fonte de água e sabedoria – juntamente com a vieira, representação simbólica do apóstolo. Finalmente, na terceira representação, Tiago Maior, é representado montado num cavalo branco, envergando uma veste branca, cor do seu estandarte. Neste, destaca-se a espada em forma de cruz. A sua mão alteia, ainda, uma espada erguida contra os infiéis.
O Culto
A Igreja Romana celebra o dia de Santiago a 25 de Julho, enquanto que, por sua vez, a Igreja Ortodoxa celebra a 30 de Abril e a Igreja Copta a 12 de Abril.
Não deixa de ser um facto curioso, a fundação da nacionalidade lusa estar associada à batalha de Ourique, que decorreu no dia 25 de Julho de 1139. Facto ainda mais interessante é a lenda que lhe é associada. Afonso Henriques foi visitado por um velho homem que o rei já tinha visto em sonhos e que lhe fez uma revelação profética de vitória. Contou-lhe ainda que «sem dúvida Ele pôs sobre vós e sobre a vossa geração os olhos da Sua Misericórdia, até à décima sexta descendência, na qual se diminuirá a sucessão. Mas nela, assim diminuída, Ele tornará a pôr os olhos e verá». O rei deveria ainda, na noite seguinte, sair do acampamento, sozinho, logo que ouvisse a sineta da ermida onde o velho vivia, o que aconteceu. O rei foi surpreendido por um raio de luz que, progressivamente, iluminou tudo em seu redor, e pôde distinguir, aos poucos, o Sinal da Cruz e Jesus Cristo crucificado. O rei, emocionado, ajoelhou-se e ouviu a voz do Senhor que lhe prometeu a vitória naquela e noutras batalhas; por intermédio do rei e dos seus descendentes, Deus fundaria o Seu império, através do qual o Seu Nome seria levado às nações mais estranhas, e que teria para o povo português grandes desígnios e tarefas.
D. Afonso Henriques voltou confiante para o acampamento. No dia seguinte, perante a coragem dos portugueses, os mouros fugiram, sendo perseguidos e completamente dizimados.
Francisco Canelas de Melo
HOMENAGEM
És Rei - a coroa fúlgida
Conquistaste-a na peleja
Da matéria com o espírito:
Venceu este – Quem deseja
Que domine a sombra a Luz?
Bem hajas, que em teus esforços
De dar vista aos cegos d'alma,
Tens levado a crença aos peitos,
Revelado o que é a cruz. …
Pois não tem o lenho erguido
Sobre a eminência do Golgotha
N'um epitaphio uma lei? . . .
Quem a cumpre? – Esse preceito
Que condemna o obscurantismo,
Segue-o acaso alguma grei?
E se alguma o segue, entende-o? . . .
Não entende, não, a fundo;
Que inda a sombra cobre a terra,
Que inda é pouca a luz no mundo.
És rei, és rei cujo nome
Se antevê na eternidade;
Astro na noite dos tempos
Através da longa idade.
No lavor, lavor sagrado,
Aos irmãos dando thesouros,
Fabricaste o próprio sceptro,
Ès rei nos carmes, no plectro,
Que alteias, que divinizas!
Vate egrégio, homem portento;
És monarcha na poesia,
És um deus no pensamento.
António Feliciano de Castilho



Um velho
Barbudo,
Bêbado
De eloquência
De Vida
Imensa.
Sorri,
Ri,
Vive
E chora
A Alma
Imersa
Na raiz
Da vida,
Na esperança
Da morte
Que liberta.
Francisco Canelas de Melo
Vi
A chama
Que clama
Em viver
Do brilho
Luzidio
A nascer…
do Mundo,
ventre da
Terra,
Sangue
Quente
De pedra,
Rocha,
Do monte
A nascer…
Dizem,
Palavras, vazias,
Cheias de Ar,
Quente,
morno,
e frio
em árido
deserto,
em húmido
Ser
Clemente
Em ver,
Viver,
Uma vida
Incerta,
Indiscreta
Mas certa
De Morrer!
Vox
Celestial…
Angelical,
Coro
Magnânimo
que cantas
em mim
Requiem
Aeternam
de Vida
de Morte
que clamas
em viver
em mim.
Sonho as sombras do meu Ser
a Eternidade
plena
criada para
Nós,
Homens,
de carne putrefacta.
Francisco Canelas de Melo