domingo, Setembro 15, 2013

"No Túmulo de Christian Rosenkreutz" - Fernando Pessoa


Christian Rosenkreutz - Mestre Lima de Freitas

I

Quando, despertos deste sono, a vida,
Soubermos o que somos, e o que foi
Essa queda até corpo, essa descida
Ate á noite que nos a Alma obstrui,

Conheceremos pois toda a escondida
Verdade do que é tudo que há ou flui?
Não: nem na Alma livre é conhecida...
Nem Deus, que nos criou, em Si a inclui

Deus é o Homem de outro Deus maior:
Adam Supremo, também teve Queda;
Também, como foi nosso Criador,

Foi criado, e a Verdade lhe morreu...
De Além o Abismo, Sprito Seu, Lha veda;
Aquém não há no Mundo, Corpo Seu.

II

Mas antes era o Verbo, aqui perdido
Quando a Infinita Luz, já apagada,
Do Caos, chão do Ser, foi levantada
Em Sombra, e o Verbo ausente escurecido.

Mas se a Alma sente a sua forma errada,
Em si que é Sombra, vê enfim luzido
O Verbo deste Mundo, humano e ungido,
Rosa Perfeita, em Deus crucificada.

Então, senhores do limiar dos Céus,
Podemos ir buscar além de Deus
O Segredo do Mestre e o Bem profundo;

Não só de aqui, mas já de nós, despertos,
No sangue actual de Cristo enfim libertos
Do a Deus que morre a geração do Mundo.

III

Ah, mas aqui, onde irreais erramos,
Dormimos o que somos, e a verdade,
Inda que enfim em sonhos a vejamos,
Vemo-la, porque em sonho, em falsidade.

Sombras buscando corpos, se os achamos
Como sentir a sua realidade?
Com mãos de sombra, Sombras, que tocamos?
Nosso toque é ausência e vacuidade.

Quem desta Alma fechada nos liberta?
Sem ver, ouvimos para além da sala
De ser: mas como, aqui, a porta aberta?

.......................................

Calmo na falsa morte a nós exposto,
O Livro ocluso contra o peito posto,
Nosso Pai Rosaecruz conhece e cala.



Fernando Pessoa

terça-feira, Agosto 27, 2013



"Eu - sem o meu ego a fazer obstáculo. Totalmente desinteressado de mim mesmo, e das consequências poderá acarretar para a minha pessoa esse entregar-me todo nas mãos de quem sou. Tamanha sinceridade só tem por limite Deus.
Mas ousá-lo é bem difícil. Estou tão cheio dos outros! O meu ego timorato acolhe-se sucessivamente nos alvéolos de assumir o que outrem de mim exige, sendo outro outrem dia-a-dia, ao sabor dos outros. Outros que a mim são iguais nisso de não serem senão outrem; e então, quem verdadeiramente é?
(...)
Verdadeiramente: o saber (como ver, como sa-ver, como consciência trinitária) só se alcança fora do ego. Dentro, só há suspeitas, dúvidas, insegurança, fome e sede. Só fora há a certeza. E fora, finalmente, é o mais dentro que pode haver!"

Lima de Freitas

sábado, Março 17, 2012

Os Caminhos desapareceram da Alma Humana



"Caminho: faixa de terra sobre a qual se anda a pé. A estrada distingue-se do caminho não só por ser percorrida de automóvel, mas também por ser uma simples linha ligando um ponto a outro. A estrada não tem em si própria qualquer sentido; só têm sentido os dois pontos que ela liga. O caminho é uma homenagem ao espaço. Cada trecho do caminho é em si próprio dotado de um sentido e convida-nos a uma pausa. A estrada é uma desvalorização triunfal do espaço, que hoje não passa de um entrave aos movimentos do homem, de uma perda de tempo.Antes ainda de desaparecerem da paisagem, os caminhos desapareceram da alma humana: o homem já não sente o desejo de caminhar e de extrair disso um prazer. E também a sua vida ele já não vê como um caminho, mas como uma estrada: como uma linha conduzindo de uma etapa à seguinte, do posto de capitão ao posto de general, do estatuto de esposa ao estatuto de viúva. O tempo de viver reduziu-se a um simples obstáculo que é preciso ultrapassar a uma velocidade sempre crescente."

Milan Kundera, in "A Imortalidade"

segunda-feira, Outubro 31, 2011



Morri...
Não sei o que morri...
Não sei o que jaz em mim...

Morte=transgressão do Ter!
Que possuímos além-Morte?
... o Ser!


Francisco Canelas de Melo



Ouvimos os sons do Mundo,
Ruído infernal,
Onde reina o Silêncio em Nós?

Escutamos ou ouvimos?...
Existimos ou vivemos?
Olhamos ou vemos?...

Onde reinas tu, ó Encoberto?
Onde jaz tua Morte?!


Francisco Canelas de Melo

terça-feira, Agosto 02, 2011

«Aspiro a um repouso absoluto e a uma noite contínua. Poeta das loucas voluptuosidades do vinho e do ópio, não tenho outra sede a não ser a de um licor desconhecido na Terra e que nem mesmo a farmacopeia celeste poderia proporcionar-me; um licor que não é feito nem de vitalidade, nem de morte, nem de excitação, nem de nada. Nada saber, nada ensinar, nada querer, nada sentir, dormir e sempre dormir, tal é actualmente a minha única aspiração. Aspiração infame e desanimadora, porém sincera.»

Charles Baudelaire

sábado, Julho 16, 2011

Sei de um Rio - Pedro Homem de Melo





Sei de um rio, sei de um rio
Em que as únicas estrelas nele sempre debruçadas
São as luzes da cidade
Sei de um rio, sei de um rio
Onde a própria mentira tem o sabor da verdade
Sei de um rio…
Meu amor dá-me os teus lábios, dá-me os lábios desse rio
Que nasceu na minha sede, mas o sonho continua
E a minha boca até quando ao separar-se da tua
Vai repetindo e lembrando
Sei de um rio, sei de um rio
Meu amor dá-me os teus lábios, dá-me os lábios desse rio
Que nasceu na minha sede, mas o sonho continua
E a minha boca até quando ao separar-se da tua
Vai repetindo e lembrando
Sei de um rio, sei de um rio
Sei de um rio, até quando

Pedro Homem de Melo

Triste Sorte - João Ferreira-Rosa





Ando na vida à procura
De uma noite menos escura
Que traga luar do céu
De uma noite menos fria
Em que não sinta agonia
De um dia a mais que morreu


Vou cantando amargurado
Vou de um fado a outro fado
Que fale de um fado meu
Meu destino assim cantado
Jamais pode ser mudado
Porque do fado sou eu


Ser fadista é triste sorte
Que nos faz pensar na morte
E em tudo o que em nós morreu
Andar na vida à procura
De uma noite menos escura
Que traga luar do céu

João Ferreira-Rosa

quinta-feira, Junho 23, 2011

"Eu não sou eu nem sou o outro,
Sou qualquer coisa de intermédio:
Pilar da ponte de tédio
Que vai de mim para o Outro."

Mário de Sá Carneiro

terça-feira, Junho 21, 2011




O meu olhar é nítido como um girassol.
Tenho o costume de andar pelas estradas
Olhando para a direita e para a esquerda,
E de vez em quando olhando para trás...
E o que vejo a cada momento
É aquilo que nunca antes eu tinha visto,
E eu sei dar por isso muito bem...
Sei ter o pasmo comigo a cada momento
Para a eterna novidade do mundo...

Creio no mundo como um malmequer,
Porque o vejo. Mas não penso nele
Porque pensar é não compreender...

O mundo não se fez para pensarmos nele
(Pensar é estar doente dos olhos)
Mas para olharmos para ele e estarmos de acordo.

Eu não tenho filosofia: tenho sentidos...
Se falo na Natureza não é porque saiba o que ela é,
Mas porque a amo, e amo-a por isso,
Porque quem ama nunca sabe o que ama
Nem sabe porque ama, nem o que é amar...

Amar é a eterna inocência,
E a única inocência é não pensar...


Alberto Caeiro

segunda-feira, Junho 13, 2011

D. Fernando, Infante de Portugal



Deu-me Deus o seu gladio, porque eu faça
A sua santa guerra.
Sagrou-me seu em honra e em desgraça,
As horas em que um frio vento passa
Por sobre a fria terra.


Poz-me as mãos sobre os hombros e dourou-me
A fronte com o olhar;
E esta febre de Além, que me consome,
E este querer grandeza são seu nome
Dentro em mim a vibrar.


E eu vou, e a luz do gladio erguido dá
Em minha face calma.
Cheio de Deus, não temo o que virá,
Pois, venha o que vier, nunca será
Maior do que a minha alma.


Fernando Pessoa
"Mensagem"
(manteve-se a ortografia original)

Fernando Pessoa



Fernando Pessoa
Lisboa, 13 de Junho de 1888 — Lisboa, 30 de Novembro de 1935

quinta-feira, Junho 02, 2011

"O Playboy - Marialva" - Prof. Luis S. Campos

Ah, e o playboy genuinamente nacional? - poderá perguntar-se com aquela mania que nós temos do "made in Portugal" (mania mentalizada para os produtos que nos interessam, porque quanto aos outros nem à custa de campanhas publicitárias maciças!). Bom, a isso respondemos apresentando um produto bem castiço, típico e original, que é - o playboy marialva.


Sendo o marialva não uma estirpe mas o depositário de um estado de graça, e o marialvismo, no seu sentido mais amplo, um estado de espírito privilegiadamente lusitano, há desde já a observar que apenas caberáaqui referir o marialva restrito e actualizado, isto é o subproduto em quarta geração - que embora não passe de um negativo desbotado tem o seu lugar assegurado por direito de transmissão na sociedade portuguesa. Esse tipo, aqui designado por "marialva-playboy", apresenta algumas características evidentes que são:

- É sempre "filho-do-pai", podendo o pai ser: a) grande proprietário de terras; b) grande proprietário de fábricas; c) ambas as coisas.

- Para ser genuíno é originário da terra riba-tejana, norte além-tejana ou estremanha confrontante.

- O animal que prefere, antes da mulher, é o cavalo.

- O bicho que mais o interessa, depois da mulher, é o touro.

- A mulher que o atrai é o apuramento sofisticado da fêmea leiteira andaluza com a égua árabe em período de cio.

- Os seus desportos preferidos são: 1º - a tourada; 2º - a farra depois da tourada.

- Ama nostalgicamente a guitarra mas não se confunde no fado alfacinha.

- Assume nos fins- de-semana a indispensável prática equestre mas habitualmente cavalga um fórmula-dois artilhado.

- Porque "noblesse-obligue", participa duas vezes por ano em saraus for-de-portas mas a discoteca é o seu poiso habitual.

- Por imposição familiar procura munir-se de um diploma de estudos - liceais ou mais ou menos agrícolas.

- Não desperdiça uma oportunidade, fora da quadra carnavalesca, para disfarçar-se com as vestes tradicionais da função.

- Considera que portugueses de raça - autênticos - são só ele e alguns confrades com pedigree .

E , porque acha que tem raízes na terra, o "marialva-playboy" exibe habitualmente um potencial telúrico apreciável, o qual evidencia em todas as circunstâncias e em particular na troca pessoal de opiniões - enfrentando normalmente o opositar á chapada, sobretudo se na ocasião do diálogo já transitou pelos copos.

Temos, pois, que o exemplar em análise é herdeiro de meia costela nobre de velho guerreiro lusíada, esclerosada embora pelos tropeções que uma história descuidada lhe deu mas parafinada por sublime instinto de sobrevivência. E que (aqui só para nós) do casamento do marialva com o playboy resultou este híbrido que não consegue ocular que já só aguenta os copos à custa de pepsmar, toma lorenim para acalmar o "medo" e, porque se deita dada vez mais sozinho... só dorme com soporíferos.

Emfim, o playboy-marialva poderá não ter subsídio do Fundo Social Europeu - mas é português e é nosso! Cumpre-nos, por isso, preservá-lo para que não se extinga.


Luis S. Campos (Prof. Cat.)

terça-feira, Abril 26, 2011

As Liberdades Essenciais - Agostinho da Silva


«As liberdades essenciais são três: liberdade de cultura, liberdade de organização social, liberdade económica. Pela liberdade de cultura, o homem poderá desenvolver ao máximo o seu espírito crítico e criador; ninguém lhe fechará nenhum domínio, ninguém impedirá que transmita aos outros o que tiver aprendido ou pensado. Pela liberdade de organização social, o homem intervém no arranjo da sua vida em sociedade, administrando e guiando, em sistemas cada vez mais perfeitos à medida que a sua cultura se for alargando; para o bom governante, cada cidadão não é uma cabeça de rebanho; é como que o aluno de uma escola de humanidade: tem de se educar para o melhor dos regimes, através dos regimes possíveis. Pela liberdade económica, o homem assegura o necessário para que o seu espírito se liberte de preocupações materiais e possa dedicar-se ao que existe de mais belo e de mais amplo; nenhum homem deve ser explorado por outro homem; ninguém deve, pela posse dos meios de produção e de transporte, que permitem explorar, pôr em perigo a sua liberdade de Espírito ou a liberdade de Espírito dos outros. No Reino Divino, na organização humana mais perfeita, não haverá nenhuma restrição de cultura, nenhuma coacção de governo, nenhuma propriedade. A tudo isto se poderá chegar gradualmente e pelo esforço fraterno de todos.»

Agostinho da Silva, in 'Textos e Ensaios Filosóficos'

domingo, Março 20, 2011

Saudade - Teixeira de Pascoaes



"Se há no homem um sentimento superior, é a saudade. Por sua virtude, integramos em nós o espaço, o pretérito e o porvir; e alcançando os limites da consciência, descortinamos, lá em cima, uma nova Realidade, muito embora longínqua e indecisa... Pressentimo-la; e este pressentimento é o mais a que podemos aspirar. É o sinal humano. A saudade é lembrança e esperança. Camões adivinhou esta verdade. As lembranças dum bem ou mal futuro... A Saudade, incidindo sobre o futuro, é esperança ou desejo, como é lembrança quando incide sobre o passado. O primeiro elemento da Saudade é criador; o segundo fixa e perpetua (....)"

Teixeira de Pascoaes, "Livro de Memórias"

sexta-feira, Março 18, 2011

La Malédiction des Templiers




Pape Clément !… Chevalier Guillaume !… Roi Philippe !… avant un an, je vous cite à paraître au tribunal de Dieu pour y recevoir votre juste jugement ! Maudits ! Maudits ! Maudits ! Tous maudits jusqu'à la treizième génération de vos races."

Jacques de Molay, 18 Mars 1314

quarta-feira, Março 16, 2011

"Alchimie de la douleur" - Charles Baudelaire

Alchimie de la douleur

L'un t'éclaire avec son ardeur,
L'autre en toi met son deuil, Nature!
Ce qui dit à l'un: Sépulture!
Dit à l'autre: Vie et splendeur!
Hermès inconnu qui m'assistes
Et qui toujours m'intimidas,
Tu me rends l'égal de Midas,
Le plus triste des alchimistes;
Par toi je change l'or en fer
Et le paradis en enfer;
Dans le suaire des nuages
Je découvre un cadavre cher,
Et sur les célestes rivages
Je bâtis de grands sarcophages.

 Charles Baudelaire

Alceste - Jean-Baptiste Lully




Final do 3º Acto da Ópera Alceste de Jean-Baptiste Lully, Compositor do Rei-Sol.

segunda-feira, Fevereiro 28, 2011

Bussaco



Bussaco é um mar
imenso sem fim...

O Abismo que outrora
reluzia do poço-fundo,

É a Morte que lhe impõem...
a Esperança quase-perdida...

Ontem era um Mar,
verde, sem fim...

Hoje, é uma clareira,
ferida, aberta e moribunda.

Onde andarás tu amanhã,
Ó Mar verdejante sem-fim?...

Francisco Canelas de Melo
Bussacrum, 24.II.MMXI

segunda-feira, Fevereiro 21, 2011

"O Poeta é soberanamente inteligente, é a inteligência por excelência; e a imaginação é a mais científica das faculdades, porque só ela compreende a analogia universal, ou o que uma religião mística denomina a correspondência."

Charles Baudelaire

sexta-feira, Dezembro 24, 2010

Feliz Natal






Adeste Fideles
Laeti triumphantes
Venite, venite in Bethlehem
Natum videte
Regem angelorum
Venite adoremus, Venite adoremus,
Venite adoremus, Dominum


Cantet nunc io
Chorus angelorum
Cantet nunc aula caelestium
Gloria, gloria
In excelsis Deo
Venite adoremus, Venite adoremus,
Venite adoremus, Dominum


Ergo qui natus
Die hodierna
Jesu, tibi sit gloria
Patris aeterni
Verbum caro factus
Venite adoremus, Venite adoremus,
Venite adoremus, Dominum

Dom João IV

sábado, Dezembro 11, 2010

"Arrábida" - Teixeira de Pascoes




"A Arrábida é o Horeb da Saudade, o monte sagrado onde ela aparece a vez primeira, encarnada no seu divino ser. Esparsa em névoa melancólica e amorosa em Bernardim, Luís de Camões dá-lhe o sentido cósmico e profundo que em Frei Agostinho da Cruz se diviniza. A névoa antiga condensou-se no espectro camoniano da Natura, para amanhecer, em perfeita aurora espiritual, sobre os ermos místicos da Arrábida."

Teixeira de Pascoaes



"Só há felicidade para o homem quando o archote da dor intensa se acende nele; é somente então que começa seu nascimento espiritual; é então que, a exemplo dos profetas, ele grita dia e noite e se lamenta pelo seu fado e pelo destino da posteridade humana. Deita-se em meio a suspiros; passa a noite em lágrimas; levanta-se ainda chorando e, durante todo o dia, carrega amargura em seu coração. Assim é a dura prova pela qual é preciso que o homem de verdade espere vir a passar. Enquanto ainda não chega lá, não lhe é permitido se considerar como já nascido."

Louis-Claude de Saint-Martin

segunda-feira, Dezembro 06, 2010

Saudade - António Barahona


A Saudade é a essência da Poesia. Todos os homens têm um passado: armazenam na memória momentos e eventos que lhes deixaram sulcos de desejo, aberturas para o futuro através das quais vislumbram o passado novamente ao seu encontro como possibilidade redentora; mas só alguns, muito poucos, os Poetas, cultivam e contemplam, conscientemente, o tempo volvido em eterna promessa.

A Saudade é um sentimento, que inclui uma espécie de programa, melhor diria empreendimento, em relação ao Desconhecido; não constitui apenas o sofrimento provocado por algo que existiu e desapareceu, legando um vazio de valor, mas também e principalmente num ímpeto de alegria melancólica a caminho do Império do Futuro, que é o Momento Presente, o único ponto no tempo em que a eternidade faz um buraco para dar passagem ao Amor Humano.

O facto de a palavra Saudade não ser vertível em nenhum idioma do mundo, assinala Portugal como fundador do Verbo Inspirado: o primeiro sítio no planeta, depois do aparecimento do homem, em que se ouviu cantar uma voz que evocava o passado todo de silêncio, servindo-se das suas partes, em pausas melódicas, a fim de criar o ritmo poético.

O Mito antecipa-se à História como Realidade Revelada, e a Lenda encerra, na sua etimologia, a Verdadeira Leitura Correcta do que se deve entender como Sinal Genuíno da História.

Em todas as línguas articuladas no mundo, incluindo as classificadas erradamente como mortas, que são, afinal, as mais vivas e vívidas, faladas na solidão entre o homem e Deus, ou entre Deus e multidões de homens numa assembleia de som, em todas as línguas articuladas no mundo, dizia, há palavras intradaduzíveis, (em sentido absoluto todas o são), que, por exprimirem sentimentos inerentes à idiossincracia religiosa dos que as proferem, exigem a sua anexação e a sua exegese, por analogia ou indeclinável diferença, veiculando, assim, o enriquecimento do léxico e a aquisição de sabedoria.

A palavra Saudade é um exemplo flagrante do que acabo de transmitir. Surpreendêmo-la em autores estrangeiros, como Blaise Cendrars, que descobriram que, ao entoá-la como mantra, isto é, como anáfora, o sentimento, que tal palavra exprime, integra a essência da Poesia em simultaneidade com a ciência, auxiliar do Poeta provocador da visão sagrada: teofania.

Também nós, portugueses, sentimos coisas para as quais não temos nome, mas basta viajarmos e aprender outras línguas, vivendo conforme os costumes e tradições ancestrais dos autóctones, para depararmos com as designações apropriadas, em vocábulos estranhos, tornados, de repente, estranhadamente familiares.

Saudade e Poesia Portuguesa trazem-nos imediatamente ao bico da pena os apelidos de Camões e Pascoes, os apelidos que representam, com mais eficácia, a alma da Pátria, em perpétua lucidez e activa submissão à Monarquia divina, que nada tem a ver com os aspectos absortos e soberbos da política literária local, mas sim, e exclusivamente, com o céu astrológico de Portugal, configurado na constelação do Espírito Santo, visível, de olhos fechados, de qualquer ponto do Universo.

A Saudade, portanto, é comum à Poesia Universal, mesmo oculta, isto é, mesmo quando tal palavra mântrica, que confere discernimento, é ignorada; e, na Poesia Portuguesa, a Saudade é primordial e perene, porque, repito, foi aqui, na Andaluzia, que abrange a actual região deste topónimo e Portugal, que, pela primeira vez, a voz humana vibrou saudosa, continuando, até hoje, o seu eco no deserto.

30.VIII.89

António Barahona
in "Os Dois Sóis da Meia-Noite", Átrio, 1990

quinta-feira, Novembro 11, 2010

São Martinho



«São Martinho é o primeiro dos Santos não Mártires, o primeiro Confessor, que subiu aos altares no Ocidente. No dizer de Durando de Mende, a liturgia consagra-lhe um lugar semelhante aos dos Apóstolos, por ter sido ele quem concluiu a evangelização das Gálias. A sua festa era de guarda e favorecida frequentemente pelos dias de "verão de São Martinho", rivalizando, na exuberância da alegria popular, com a festa de S. João. Tinha Oitava como S. Lourenço, porque S. Martinho, "pérola dos sacerdotes", era entre os Confessores o que S. Lourenço era entre os Mártires, o maior dos Confessores. Nasceu na Sabária Panónia) e veio para as Gálias como soldado.

Sendo ainda catecúmeno, deu um dia perto de Amiens a um pobre, que Ihe pedia esmola por amor de Cristo, metade da clâmide. Na noite seguinte, Jesus Cristo apareceu-lhe vestido com essa metade que ele dera ao pobre, e disse-lhe: "Martinho, sendo ainda catecúmeno, vestiu-me com este manto".


Recebeu o baptismo aos 18 anos. Depois de viajar pelo Oriente, onde se iniciou na vida monástica, faz por algum tempo vida de eremita numa ilha das costas da Ligúria. Finalmente, fez-se discípulo de Santo Hilário, que então florescia na cadeira episcopal de Poitiers e fundou no deserto de Ligugé, a duas léguas da sede do Bispado, um mosteiro para onde se retirou com alguns discípulos. Lançou assim os alicerces do monaquismo nas Gálias.


Mas Deus não queria que esta luz, ficasse oculta debaixo do alqueire, e S. Martinho foi arrancado à paz da solidão e revestido da dignidade episcopal, que lhe deu ensejo para desenvolver largamente os dotes do seu coração de apóstolo. Pregou o Evangelho pelos campos da Gália e extirpou de vez os resíduos tenazes do paganismo, que tinham resistido à investida cristã a coberto da superstição e da ignorância do povo. Colocado à frente da diocese de Tours, fundou a célebre abadia de Marmoutiers ou o grande mosteiro aonde com frequência se retirava para viver mais longe do mundo,e mais perto de Deus. Cercavam-no oitenta monges de vida santíssima, pautada pelo exemplo e regra dos eremitas da Tebaida.


Viveu mais de oitenta anos, ocupado sempre com a glória de Deus e a salvação das almas, e morreu em Candes, perto de Tours, em 397.


Ao seu túmulo afluíam de toda a parte peregrinações frequentes. Gregório de Tours, que lhe sucedeu, não hesita em chamar-lhe o "Patrono de todo o mundo". Poucos santos alcançaram a popularidade dele. Só em França há perto de mil igrejas paroquiais e 485 burgos e lugares com o seu nome. Em Roma é notável a igreja de S. Silvestre e S. Martinho, onde se faz a estação de quinta-feira da quarta semana da Quaresma.
A capa de São Martinho era conduzida à frente dos exércitos em tempo de guerra e nela se pregavam os sermões solenes em tempo de paz. Símbolo da protecção, que S. Martinho dispensava à França, esta capa deu o nome ao oratório, que a guardava, e a todos os oratórios, ou "capelas"»





Chaves, Luís -"São Martinho de Tours", in Separata da Revista de Etnografia nº1, Museu de Etnografia e História (1963)

terça-feira, Novembro 09, 2010

Batalha de Termópilas



Dos que morreram nas Termópilas
ilustre foi a sina, bela a morte;
seu jazigo é um altar
onde as lembranças são as libações
e os louvores o vinho derramado.
Sobre esta pedra não terá poder o musgo
nem mesmo o tempo que domina tudo:
na tumba dos heróis habita agora
o resplendor da Grécia.

Atesta-o Leônidas, o Rei de Esparta,
do qual bravura e glória
eternamente brilham.




Simónides de Ceos

quinta-feira, Julho 29, 2010

"Tristão e Isolda" de Richard Wagner




"Para tudo confessar, a juventude não me teria sido suportável sem a música wagneriana. Estava então condenado aos alemães. Quando pretendemos libertar-nos de uma opressão intolerável, tomamos haschich. Pois bem: eu tomei Wagner. Wagner, sendo o antídoto de tudo quanto é por excelência alemão, é um veneno, não o nego... A partir do momento em que houve uma partitura de Tristão para piano tornei-me wagneriano. As obras anteriores pareciam-me estar muito abaixo de mim, eram ainda demasiado vulgares, demasiado alemãs...Hoje, procuro em vão em todas as artes uma obra que iguale Tristão, na sedução fascinante, na espantosa e suave infinitude. Todas as estranhas criações de Leonardo da Vinci perdem o encanto mal se ouvem os primeiros compassos de Tristão. Esta obra é incontestavelmente o nec plus ultra de Wagner; depois dela, os Mestres Cantores e O Anel são retrocessos. Ser mais saudável, para uma natureza como a de Wagner, equivale a um retrocesso..."


Friedrich Nietzsche in Ecce Homo

quinta-feira, Julho 15, 2010

"Para mim, o romancista é o historiador do presente, enquanto o historiador é o romancista do passado."


Georges Duhamel